Sobre Cegos, Podridão Humana e Críticos
>> sexta-feira, setembro 19, 2008
Antes de ver o filme eu assisti um vídeo da premier do "Blindness" em Portugal, onde o próprio Saramago foi convidado para assistir a mesma versão apresentada em Cannes. O diretor fez questão de levar o filme para o autor do livro, já que o próprio não pode ir a Cannes por problemas de saúde. SARAMAGO (com todas as letras maiúsculas!) ficou tão emocionado, que chorando, elogiou consideravelmente o trabalho fantástico do Fernando. E quando o as idéias da linguagem cinematográficas convergem com o do autor textual, FODA-SE A CRÍTICA! (com todas as letras maiúsculas também!) O Fernando Meirelles foi tão arrebatador, tão vangloriado, tá com o ego tão massageado como sexo tântrico e a auto-estima no nirvana, que depois desse elogio ele pode se aposentar!
E o próprio Saramago negou inumeras vezes a filmagem do seu livro, alegando que o "cinema mata a imaginação". Depois do mesmo ter assistido Cidade de Deus, uma obra de Meirelles retratada do livro "Cidade de Deus" de Paulo Lins, acredito que ele aceitou a proposta por mera curiosidade de um talento com o Meirelles dando seu ponto de vista a obra.
E vale ressaltar: a transliteração é perfeita!
O filme é arrebatador, o visual é excepcional, a fotografia é maravilhosa e as atuações dignas de prêmios! De qualquer maneira, não é um filme de fácil digestão...
O filme retrata uma inexplicável epidemia de cegueira que se alastra por toda uma nação, de crianças a idosos, de pobres aos mais altos cargos políticos, e depois se passa num confinamento, num gueto, onde os doentes acometidos pela "Cegueira Branca" são internados. Aqui ele demonstra uma aula de cinema. A linguagem retratada pela falta de visão da humanidade está nas entrelinhas silenciosas. Os personagens não tem nomes, a nação não tem bandeira, o internato dos doentes é idêntico a um manicômio, piores do que no filme "Bicho de Sete Cabeças".
Ele brinca com a superexposição da luz, enaltecendo o branco espalhado por toda a parte, foca em abstrações pelas tonalidades dessaturadas e demonstra que enxergando ou não, a natureza humana pode facilmente se envolver pelas trevas... Sem falar no viaduto do Chá em São Paulo, completamente abandonado: vazio, imundo, com pessoas perambulando como zumbis, uma apoiada no ombro das outras ou sozinhos e completamente nus (outra metáfora pela falta de visão?)
Destaque pela atuação da Julianne Moore, Marck Rufalo, Danny Glover e Gael Garcia Bernal. O médico tenta usar a razão de todas as formas para acometer a loucura e manter as pessoas sob controle, enquanto o Gael joga a sanidade para o espaço. Danny Glover é um dos poucos que conseguem conviver e vivenciar um universo a parte com seus outros sentidos e Julianne em tentar levar a humanidade rumo a...humanidade. Ela é o unico ser humano que enxerga, que presencia tudo, que testemunha o horror e que como aqueles que não vêem, fará qualquer coisa pela sobrevivencia. Isso está na natureza humana. Não tem monstros aqui, só seres humanos nos seus extremos.
Eu li o livro do Saramago. E sei que o livro é extremamente violento, escatológico e realista. E Saramago escreve em um ritmo diferente de tudo, um jorro de idéias concatenadas e sentimentos profundos expressos em frases imensas separadas por dezenas de vírgulas. o cara quase não usa ponto, fazendo com que o leitor faça sua própria pausa mental. Meirelles transformar isso em um filme sublime e emocionante, faz com que ele seja um dos maiores diretores do mundo, sem falsa modéstia. Mas não dava para simplesmente tentar transmitir o mesmo horror de forma tão verdadeira sem haver censura para menores de 21 anos e proibição de alguns países. Sei que sou exagerado, mas quando uma imagem é relatada numa narrativa e SUA MENTE IMAGINA, vc pode chegar a situações únicas, que nenhuma outra pessoa pode ter a mesma idéia. Como alguém poderia imaginar que por causa de dois olhos, a humanidade perderia a humanidade? Seríamos piores do que primatas, animais, bestas, agindo apenas por instinto? Alguém imaginou isso no cinema?
Meirelles imaginou! No blog dele que recomendei a algum tempo atrás ele fala dos Test Screening que teve no Canadá onde 1/5 da platéia se levantou após a cenas mais forte. (imaginei como David Linch faria um filme desses!)
Claro que escatologia, degradação, estupro coletivo, imundice fisica e psicológica ja é dificil de ser imaginado. Na maioria das cenas foram inteligentemente usado recursos cinematográficos para retratá-las de uma forma menos repulsiva, o que não diminui nada em intensidade! Lembro que existem tb cortes estranhos, tomadas destorcidas ou fora de quadro, dando uma sensação, proposital e incômoda, de que não estamos "enxergando" direito, tamanha é a crueza das cenas e a falta de música (em algumas cenas há musica, meio hipnótica, e em outras os sons são elevados ao máximo. Sensação bem vivida de quem não enxerga e tem os outros 4 sentidos bem apurados).
Ensaio Sobre a Cegueira não é um filme agradável de ser vistos por todos. É realista demais, é extremista, e é necessário para discutir a condição humana, porque a cegueira sempre foi uma metáfora primorosa e a cada ano que passa ela vem sendo utilizada para um futuro apocalíptico. O que nunca deixará de ser o livro e o filme uma obra prima, jogando a merda na cara e no ventilador do espectador e do leitor, da pior da condição humana: o que somos na essência, quando todas luzes, nesse caso, se acendem...
P.S.: A crítica internacional arreganhou com o filme. Infelizmente, ver filmes de Hollywood demais, faz com que enxerguemos de menos.
Salve!
Oie,
eu estava morrendo de voltade de ser este filme, mas naum fui por falta de compania, mas agora tenho q ver de qualquer maneira nem q seja sozinha...
tb fikei curiosa pelo livro.
Beijos
Bom dia xeroso!!
Aaaiii tu tah me matando de ansiedade!!
desde aquele outro post...
Tenho CERTEZA de que ficarei em estado de sei lá o que durante bom depois depois de assistir ao filme.
Beijomeliga ;)
é sutilmente bem apreciado seus dizeres, faz com que saibamos de fato lidar com visão própria, sem desconsiderar visão alheia, sem considerar visão louvável, sem ir contra o provável, sem se preocupar com diferenciar, só aceitando o que se é, aproveitando o melhor que se pode ter, tal disposição fará com que valorizemos melhor tantos filmes, histórias, e artes, inclusive, de nosso próprio poder ...vc me instigou ainda mais e perceber o filme, obrigado
meu amigo, vc disse tudo.
fantástica sua resenha. teu texto está cada vez melhor ein...alo Brasil!
grande abraço!
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