MORTE, o grande momento da VIDA

>> quarta-feira, novembro 15, 2006


Durante alguns anos eu sempre compartilhei com a dor de várias pessoas com a perda de seus entes queridos, dos mais intrínsecos relacionamentos aos mais próximos, da angústia de um descanso até a sobrevivência e o renascimento próprio depois de um grande acidente. Dessa vez eu reverto esse conhecimento para minha família. Há 2 dias minha avó faleceu...
Durante muito tempo que eu convivi com ela, especialmente porque ela morava conosco, eu pude compartilhar com situações familiares que nunca presenciei, pessoas que nunca conheci, vidas próprias que nunca vivenciei, segredos que morreram com ela porque minha avó era a última pessoa viva de 5 irmãos, e tinha o “privilégio� de não lembrar o nome do remédio que toma, mas nunca esquecer o que aconteceu com ela há 80 anos atrás! (Ela tinha 85)

Todo o tempo que passei com ela, cuidando, conversando, discutindo, reclamando, rindo, falando besteiras, alimentando, remediando, aliviando, amparando e carregando ela para tudo quanto é médico, hospital e tratamento, só me inspirou cada vez mais a compreender o esforço inenarrável que ela fez para continuar vivendo, independente das intempéries da vida.

Minha avó casou aos 21 anos de idade apaixonada, por um marido tuberculoso, cujo casamento durou menos dois anos, com ele falecendo com a minha idade (27). Após o falecimento do meu avô, onde milagrosamente ela não foi contaminada pela tuberculose, na época sem cura, veio a corroborar toda a resistencia de minha avó até o ultimo momento. No ultimos anos, onde publiquei até uma matéria na minha antiga página do Multiply e no meu antigo Fotolog, minha avó com 80 e poucos fazia ginástica, dança de salão, tinha uma flexibilidade surpreendente, participava de excursões, bailes, eventos, festas, não aparentando mais que 65 anos, foi matéria de capa do Caderno de Saúde do Globo, do jornal o Dia e de um programa especial sobre a Terceira Idade do Canal Futura. Ao longo de décadas, os pais, as 3 irmãs, o meio-irmão, os sobrinhos, os tios avôs, os padrinhos, as madrinhas, foram um por um falecendo.

Na quinta-feira, após a ginástica, onde ela ironicamente voltou do Sesc onde procurava outra atividade, ela teve queda de pressão, sendo hipertensa preocupa mais do que tendo pressão normal e sentiu um aperto, sem dor, no peito e pescoço. Após a ida ao Hospital Municipal Lorenço Jorge e sua posterior internação, ela passou o fim de semana internada com visível melhora, mas sempre monitorada. Na segunda-feira, após o ultimo horário de visita, quando a visitei às 18:30, ela estava desorientada e anestesiada por causa dos medicamentos. Às 20:30 ela teve uma parada cardíaca seguida de insuficiência respiratória e não resistiu.... Depois de todo o sofrimento durante a vida, minha avó faleceu rápido, fulminante e indolor.

Na ida ao hospital, após a ligação do médico para nossa casa pedindo documentação e antes de descobrir que ela havia falecido, adormeci no ônibus, e sonhei...
Estava numa praia imensa, num dia ensolarado, com uma vasta visão de um intenso mar azul, vívido e deslumbrante pelo reflexo do sol. No final da extensão da praia, havia uma encosta, um rochedo, um pontal, com um imenso veleiro ancorado. Desse veleiro vinha várias pessoas, na base de umas 40, todas vestidas de branco, com uma única pessoa, também de branco, na frente da multidão. Era um homem de estatura média, mulato, que quando se aproximou de mim abriu um sorriso....era meu avô! Que eu nunca o conheci na vida só em fotografia, mas continuava tão jovem quando morreu. Cutucaram nas minhas costas e estava minha avó, tb de branco com um sorriso característico dela. Ela me abraçou calorosamente, me beijou e foi em direção ao meu avô, Iran. Eles se abraçaram, se beijaram, e se despediram, indo junto com a multidão para o veleiro.
E agora com toda a família reunida outra vez, berrando aos quatro ventos “até que enfiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmm caralho!�, ela deixa saudades, inspiração, e a certeza de que onde ela estiver, ela está incomensuravelmente muito feliz! Que toda a dor da saudade de todas as irmãs que haviam morrido sejam compensados. Afinal, o que não vai faltar é assunto! E principalmente o que brindar! Saúde!

Vó, Te Amo do fundo do coração!

A todas as pessoas que me ligaram, compareceram ao velório, mandaram os sentimentos, as condolências, os pêsames, estiveram presentes, de perto ou de muito longe, a mim e a toda família, um muitíssimo obrigado!

Beijos, abraços e...puta merda, chega de remédio....

Breve Sopro No Ar
Tribo de Jah

Distante na estrada
O horizonte se apaga
Entardecer eternizante
Em apenas um instante
O olhar se perde no escuro
Sem passado ou futuro
Só a luz interior
Nos faz seguir sem temor,
Vivendo no mundo
Por tão pouco tempo
Não mais que um segundo,
Um breve momento
Não se pode estar perdido
Não se pode estar
Vagando sem um sentido
Viajando pra nunca chegar
Somente um louco
Não irá realizar
Que a vida é um sopro,
Um breve sopro no ar,
Viagem passageira.
Até outra fronteira
Onde nada se vai levar
Nem como todo ouro
Aqui acumulado,
Se comprará o tesouro
Por todos mais cobiçado,
O tesouro mais precioso
De Ter sua mente em paz.
A mente em paz
O espirito livre e pronto
A consciência tranquila
Em paz com a vida,
Não há tempo pra intrigas,
Só o que há de valor é paz
A paz inteiror.

6 comentários:

etienne 11:29 PM  

Primo,

Eu fiquei realmente mto triste qd soube.
Vc deve tah sofrendo pra caraleoooo.... cara mas a morte eh inevitavel... mas eh foda aceitá-la!
Lembra sempre que a vida continua, mesmo que a dor da perda seja grande...
Tu sabes q podes sempre contar comigo pra desabafar, eu te amo!!!
bjs, fica com Deus.

China 12:42 PM  

Nego, eu ia t ligar ontem, mas infelismente, vc sabe o pq...n deu...quero muito conversar c vc sim, se der certo, te ligarei hj a noite!um xero bem grande e fica na paz!

Lorena 2:58 PM  

É amigo... a morte é difícil apesar de ser um evento natural.
Faz a gente pensar em um monte de coisas, repensar na vida, mudar aqueles hábitos de deixar tudo pra dps, valorizar cada ente querido que está ao nosso lado.
É evento natural mas muda nossa vida pra sempre. Mesmo que todas as atitudes "carpe diem" passem dps de um tempo, os pensamentos que mudaram não voltam mais.
Mas no fim o que importa mesmo é que a morte não é o fim da vida, é o fim de uma fase componente de toda uma existência.
E conforta saber que SEMPRE estaremos perto, materialmente ou não, daqueles que amamos.
Mando um beijo pra vc e boas vibrações desejando que ela esteja muito bem.

Aline Radialista 1:04 PM  

Cara, nem sei o que falar depois desses sonhos. Tenho tido muitos sonhos mas prefiro revelá-los pra vc na hora certa. Tb andei sonhando com vc e sua mãe e senti a presença de uma cigana. Alguma coisa tem...
Não vou dar meus lamentos pela perda em vida, mas vou celebrar com felicidade a ida daquela que há muito era esperada por sua família em um lugar que um dia conheceremos tb.
beijos de quem te ama
Line

Cotrimus 12:45 AM  

Bicho, como eu te entendo.
Em maio deste ano "perdi" a minha avó mais querida e no último sábado, meu avô materno. Tô tonto até agora. Não preciso dizer muita coisa, as lágrimas que estão nos meus olhos são suficientes para expressar o que sinto. Compartilho com vc. É foda, não dá pra entender. Mas temos que seguir adiante. Alguém sempre diz isso, né? Será que foi o cara que escreveu o manual da vida? Pq se eu achar esse cara um dia eu juro que dou umas porradas nele...
Bjs saudosos e abraços calorosos.

Anônimo 8:17 AM  

Igor, llevo unos meses muy ocupado y sin tiempo casi para visitar blogs. En particular, llevaba dos meses sin leer el tuyo. Ayer, una amiga mia de Madrid que te lee siempre me dio la triste noticia. Todo mi amor y mi simpatia estan contigo y con tu familia, hermano. Tu abuela fue una bella persona, yo se que su inspiracion no te va a abandonar nunca.

Paz.